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Discurso proferido por ocasião da formatura do 4.º Normal Médio da Escola Jornalista Manuel Amaral, 17 Dez. 2005

    Queridos Formandos, vocês que ora concluem o Curso Normal Médio, após uma jornada cheia de aventuras e algumas desventuras, mas que acredito muito enriquecedora e da qual certamente vocês jamais se esquecerão, saibam de uma coisa: o momento presente é de júbilo, é de vitória, é de emoção latente, e merece ser comemorado, afinal, quanto(a)s colegas de vocês não enveredaram por outros caminhos ou mesmo ficaram na estrada! No entanto, tenham em mente que toda conclusão, independente do curso e do nível, é apenas ponto de partida, nunca de chegada estagnante! Na escalada da montanha do conhecimento, aquele que acredita já ter atingido o cume, certamente que nada sabe, é um tolo! Como o filósofo grego Sócrates, que já no ano 400 A.C., ao ser apontado pelo oráculo de Delfos como o mais sábio de todos os homens, respondeu apenas: “só sei que nada sei.”

cicero henrique
Cícero Henrique

    De certo que a sabedoria humana, e quando usada apenas de forma humana, é loucura aos olhos de Deus. Logo: diplomas, certificados, anéis nos dedos, posição social, status... tudo isto, diante da imensidão que é o mistério da vida, é muito pouco, é fugaz, é supérfluo e pode até causar aquela velha e nefasta sensação, de que somos donos de nossos próprios destinos, que somos independentes de Deus, que o sentido da vida está no sucesso social e financeiro a se alcançar.

    Não quero dizer com isso que Deus não abençoe ricamente quem, com o suor de seu trabalho honesto, galga posições e adquire bens materiais, afinal tudo provém do Senhor, todavia todo o sucesso que se possa almejar e posteriormente conquistar só terá sentido, só se aperfeiçoará em sua plenitude de realização humana se puder acrescentar em nossas vidas algo que considero fundamental num ser humano: a capacidade de melhorar o mundo em que vivemos, naquilo que pudermos melhorar! Podemos começar exercitando o dom sublime do perdão, esquecendo os rancores e os gestos de desamor. Podemos começar com uma reciclagem em nossas vidas, tão comum em épocas de final de ano, jogando fora tudo o que nos afasta do irmão, porque tudo o que nos afasta do irmão termina por nos afastar de Deus.

    Saibam, professorandas, que conscientes ou inconscientes, vocês abraçam neste momento, ao menos aquelas que seguirão o nobre ofício do Magistério, mais do que uma profissão, abraçam uma verdadeira causa e, destarte, levam consigo a missão indelével e o sagrado e imperioso dever de fomentar em nossos estudantes o desejo de alcançar novos ideais, de não desanimar, nem desistir ante os  obstáculos, pois temos que acreditar e lutar sem tréguas para que o Brasil supere seus problemas e seja uma grande pátria para seus filhos... É o mínimo que podemos deixar de herança para o porvir!

    Se há problemas, temos que entender que para eles há as soluções. Exemplos como o da Irlanda, Espanha, Japão e Canadá, que são países com índices de desigualdade sociais irrisórios, porque que investem grande parcela de seu Produto Interno Bruto (PIB) em educação, nos dão a certeza de que grande é a nação onde o conhecimento é a arma mais eficaz contra as mazelas sociais. A educação liberta e desaliena o homem... produz o conhecimento, e esta é arma infalível na conscientização de nossos deveres e na reivindicação, principalmente junto à as autoridades constituídas, de nossos direitos sagrados e inalienáveis de cidadania.

    Todavia, nossas crianças só poderão aprender a manusear esta arma nas salas de aula, com professores que, a despeito de todas as dificuldades com relação à valorização do profissional do magistério, cumpram com o seu dever com consciência, comprometimento com a verdade e os valores éticos.

    E, por falar em “valores éticos”, 2005 será marcado fatalmente como um ano em que a falta de ética foi motivo de uma crise política sem precedentes no cenário nacional. Chegou a ser cansativo ver que os nossos mandatários de Brasília passaram a maior parte do ano tentando acusar e se defender, ao invés de trabalhar em prol dos milhares de brasileiros sofridos que necessitam mesmo é de um emprego e uma moradia, e não dessa demagogia nefasta, onde não se sabe mais quem é santo e quem é demônio.

    Toda esta podridão que vimos passa, indubitavelmente, pela falta de ética, que já não é só na política, é um mal endêmico no seio de nossa sociedade. Exceções à parte, até porque ainda há muita gente de bem neste país, o que temos visto é um Congresso Nacional engessado e comprometido com o conluio, com o jogo de interesses políticos e pessoais, cenário político que tem trazido grandes prejuízos à Nação. Guardadas as devidas proporções, tal cenário tem se refletido nos Estados da Federação e, porque não dizer, até na política dos Municípios, emperrando e estagnando mais ainda o crescimento econômico e social de que este país tanto precisa para acabar com mazelas antigas e tão pouco combatidas.

    Os meios de comunicação este ano foram abundantes em noticiar vários episódios em que se configurou claramente a falta de ética na sociedade, seja na política, no trabalho, nos meios esportivos, culturais e religiosos.

    Tudo isto é reflexo de uma sociedade que valoriza comportamentos que praticamente excluem qualquer possibilidade de cultivo de relações éticas. É fácil verificar que o desejo obsessivo na obtenção, possessão e consumo da maior quantidade possível de bens materiais é o valor central na nova ordem estabelecida no mundo e que o prestígio social é concedido para quem consegue esses bens. O sucesso material passou a ser sinônimo de sucesso social e o êxito pessoal deve ser adquirido a qualquer custo.

    Prevalece o desprezo ao original, o que está acabando com as nossas tradições, temos “americanizado” nossa própria identidade brasileira. Prevalece o culto à massificação das informações, o que faz com que um pequeno grupo monopolize, centralize e filtre as informações, repassando para o grande público apenas as informações que este grupo decidir serem convenientes, distorcendo as demais informações ou mesmo desviando o foco da verdadeira notícia. Prevalece, também, a mediocridade das cabeças pensantes, que parecem não terem coragem de denunciar e lutar contra as injustiças. Prevalece, ainda, a demagogia política, que usa da mesma retórica há décadas e continua a se perpetuar no poder, contando com a ignorância do povo. Prevalecem a falta de escrúpulos e critérios educacionais da mídia televisiva, que sob o falso argumento da liberdade de expressão e opinião, que sob a falsa justificativa de ter que retratar a realidade brasileira, não estabelece critérios para a exibição de programas com conteúdo pornográfico ou, no mínimo, erótico, exibindo programas com forte senso apelativo para a violência, para a prostituição, etc. Ela, a mídia, sim, é um disseminador extremamente eficaz na propagação da falta de ética em nosso meio, porque trabalha diariamente e, por ter um modo de propagação muitíssimo eficaz (áudio-visual), usa sua programação de forma pouco educativa, mas muito alienatória, quase sempre incutindo nas cabeças pouco pensantes, uma doutrina que está a favor dos contra-valores éticos e morais, valores outrora basilares de nossa educação, os quais herdamos de nossos pais e avós. Sem grande esforço, podemos notar claramente que a mídia está comprometida mesmo é com os índices de audiência e na obtenção desta audiência, os fins justificam os meios. Claro que há exceções, uma pequena parte da mídia, infelizmente a menos consumida, realmente tem compromisso ético e social.

    Infelizmente, o currículo adotado na maioria das escolas e universidades, exceções à parte, parece não dar muita ênfase ao estudo da ética.

    Ficamos escandalizados com a falta de ética na política, mas nos esquecemos que ela abarca outros setores. Acredito mesmo que a falta de ética tenha desencadeado a violência desenfreada que assola-nos hoje. Pelo que temos presenciado, a vida perdeu o sentido e o valor, mata-se pelas mais variadas banalidades, já não se respeitam mais as instituições e os símbolos de nossa pátria, nossas tradições começam a dar lugar para os modismos estrangeiros, exterminando por completo nossas raízes culturais. Já não se respeita mais idosos e crianças, o cavalheirismo parece ter dado lugar à competição ilógica entre os sexos. A preocupação com a natureza parece sempre ficar em segundo plano, quando o objetivo é o vil metal. As autoridades, estas então quando não destratas e achincalhadas, quase sempre são ignoradas. A caminhar assim, não se precisará de um embate, nos moldes bélicos, para que acabemos com o mundo, as guerras civis, provocadas pelas convulsões geradas pelos desajustes e distorções sociais, com milhares de marginalizados, darão cabo do “planeta azul”.

    É preciso recuperarmos o senso de ética o quanto antes. Não deve ser tão eqüidistante assim, pois ela, a ética, é uma característica inerente a toda ação humana e, por esta razão, é um elemento vital na produção da realidade social. Todo homem possui um senso ético, uma espécie de "consciência moral", estando constantemente avaliando e julgando suas ações para saber se são boas ou más, certas ou erradas, justas ou injustas.

    Mas como falar em ética, numa sociedade que inverteu (ou está invertendo) seus valores? Onde o poder e o dinheiro compram consciências como artigos em prateleiras de supermercados?

    Hoje nossos jovens já não estão sendo preparados para ocuparem um lugar na sociedade e, como tal, desempenharem seu papel na construção de um país melhor... São preparados para conseguir sucesso, sucesso profissional, sucesso afetivo, sucesso emocional, mas, acima destes todos, sucesso financeiro. E a cabeça dos jovens assim raciocina: – “é necessário ter sucesso” o que, em nossa cultura e civilização esquisita, virou sinônimo de “ter dinheiro” – nada de talento, habilidades, conhecimento, agilidade, charme... Para tanto as pessoas estão sendo doutrinadas e condicionadas pelo neocapitalismo selvagem a transformarem a maior parte de suas capacidades laborativa em dinheiro.

    Enquanto o país não repensar sua distribuição de renda e não adotar políticas sociais efetivas e não eleitoreiras, enquanto não houver uma mudança do sistema econômico vigente (leia-se nas entrelinhas, enquanto houver este distanciamento de classes sociais, ou seja, enquanto uma ideologia continuar manipulando e perpetuando-se no poder) acreditamos que não será possível uma mudança significativa em nosso sistema educacional, de modo que uma educação de qualidade e conteúdo significativo possa estar ao acesso de todos.

    A escola que almejamos deve ser uma escola unitária, universal, pública e onde o dinheiro não faça diferença, onde o pobre e o rico tenham, desde o primário, igualdade de condições, uma escola que não vise fomentar apenas cérebros aptos ao desenvolvimento econômico e mercadológico, onde a formação humana venha acompanhada da formação profissional e ambas se complementem na formação do caráter do homem. Numa escola assim, as formaturas estarão tornando aptos homens e mulheres não apenas para o mercado de trabalho, mas aptos para a vida, com cada um sabendo seu papel na construção de um mundo melhor.

    Despeço-me, concitando-vos a nos debruçarmos sobre as palavras contundentes e talhadas com esmero, do nosso poeta Antônio de Oliveira, quando, ao escrever o hino de Lajedo assim asseverou:

Forte e brava escreveu tua gente/ Com vigor e denodo esta história
De renúncia, conquistas e de glória/ Que nas lides do agora é presente.

    Peço vênia ao ilustre poeta lajedense para assegurar que a história de Lajedo continua a ser escrita a cada dia, por milhares de homens e mulheres, que aqui nasceram ou, como este que vos fala, que adotaram esta terra “esculpida na penha” como seu lar, pessoas de almas simples e fibras de herói, que, muitas vezes ali, despercebidas, sem serem notadas ou mesmo sem serem reconhecidas pela opinião pública ou pelas autoridades constituídas, dão o melhor de si para o engrandecimento desta terra, o melhor que um homem tem para dar, o que lhe há de mais sublime e divino: sua humildade ética e o fecundo suor de seu trabalho.

    A todos os que me ouvem, feliz Natal e Próspero Ano Novo.

    E a vocês, queridas alunas, parabéns a todas!

    Viva o Brasil, viva Lajedo e viva a educação, que proporciona, entre outras coisas, o conhecimento que liberta e desvencilha dos grilhões da opressão.

    Muito obrigado, que Deus seja louvado.

Cícero Henrique da Silva
Bacharel em Direito pela FADICA
Advogado inscrito na OAB/PE
Assessor Jurídico da Prefeitura de Lajedo
Professor contratado da Rede Estadual de Ensino


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