Será? Acredito que não! Acho que se trata de mais um estereótipo
dado ao nosso povo.
O Brasil não é um país intrinsecamente corrupto. Não existe nos genes brasileiros nada que nos predisponha à corrupção, algo herdado, por exemplo, de desterrados portugueses. A Austrália que foi colônia penal do império britânico possui índices de corrupção muito baixos. A Alemanha, depois de arrasada pela guerra, foi se erguendo aos poucos, a custa de muito sofrimento de seu povo, que nem por isso cedeu à corrupção. A Índia é um país com desigualdades sociais mais gritantes que o Brasil, mas o povo indiano é capaz de ver dinheiro na rua e não pegá-lo, por saber que o mesmo tem um dono.
Nós brasileiros não somos nem mais nem menos corruptos que os japoneses, que amiúde aparecem com um ministro que renuncia diante de denúncias de corrupção.
Os norte-americanos também não estão isentos: Lá um presidente renunciou diante de um escândalo de espionagem que envolvia diretamente a “casa-branca”. Sem falar no Bush!
O problema brasileiro é que por aqui a corrupção (seja pública ou privada) é detectada somente quando chega a milhões de dólares e porque um irmão, um genro, um jornalista, um funcionário demitido ou alguém botou a boca no trombone, raramente por um processo sistemático de auditoria. Se bem que, em maior ou menor grau, estas auditorias acontecem. Quantas não são as contas públicas rejeitadas ano a ano pelos Tribunais de Contas? Quantas não são as irregularidades apontadas pelo Ministério Público? No entanto não tem sido muito comum ouvirmos a mídia noticiar que algum dirigente político foi para a prisão ou teve seu mandato cassado. Parece que sempre há “um jeitinho”.
E é esse jeitinho brasileiro que tem acabado com o país!!!
É famosa a história da mãe que levou o filho de 7 anos para o psicólogo alegando que não conseguia dar um jeito na criança, que mentia o tempo todo. O médico, mesmo após uma longa conversa com o garoto, não estava conseguindo detectar a raiz do problema. Finalizada a consulta, a mãe pediu ao médico um atestado para provar para o chefe que estivera ali com o filho:
“-Por favor, doutor, o senhor pode escrever no atestado que a consulta foi às 11h30h?”
O médico olhou espantado! A consulta fôra às 8:00h e ainda eram 8:50h. Ela continuou:
“É porque eu queria aproveitar o resto da manhã para descansar!”
Neste momento o médico percebeu qual era o problema com a criança: Ela vivia num ambiente onde as pequenas mentiras eram encaradas com naturalidade.
Parece ser este o problema com o Brasil... As pequenas corrupções estão presentes em nosso cotidiano e nem nos damos conta. Achamos normal e até nos vangloriamos de nossa malandragem.
O brasileiro fica “p” da vida com as notícias sobre corrupção, principalmente quando envolvem políticos, no entanto, no momento em que o guarda de trânsito nos pára sem o cinto de segurança, gastamos todo o nosso português tentando dissuadi-lo da multa e, como último recurso, até oferecemos um “toco” para o policial fazer vista grossa deste e de tantos erros cometidos. Em nenhum momento paramos para pensar se esta estatística alarmante sobre mortes no trânsito brasileiro não têm a ver com práticas como estas.
Se somos o último de uma enorme fila no banco e, pronto para ser atendido, vemos nosso melhor amigo, logo damos “um jeitinho” para lhe entregar o envelope, até inventamos: “Olha, chefe esqueceu de mandar esse pacote, é pra depositar, tá bom.” Ninguém pára para pensar que talvez naquela fila devam estar várias pessoas com compromissos tão importantes quanto os nossos, talvez até mais importantes. Mas o que vale é se dar bem, é a lei de Gerson bicho!
Atire a primeira pedra quem nunca usou de um ardil ou subterfúgio para “se dar bem” em um determinado momento de nossas vidas!
O problema é que mensuramos a corrupção usando como referencial somente o dinheiro: quando se trata de milhões de reais, então é corrupção. Quando é ‘apenas’ o dinheiro para uma cervejinha que eu dei para o fiscal não me multar, quando é ‘apenas’ cinqüenta centavos que eu recebi a mais do troco do pão e nem comentei com o caixa da padaria, então não é corrupção. Aquela mercadoria que eu vendi sem nota fiscal, também não é corrupção, afinal não tenho mesmo uma contra-prestação do governo!
Gente, corrupção é como a gravidez: assim como a moça está grávida ou não está grávida, ou o ato é corrupto ou não é. Não existe mais ou menos grávida, não existe gesto mais ou menos corrupto.
Numa sociedade que inverteu seus valores, onde o temor a Deus, o respeito ao próximo, o cavalheirismo, o sentimento patriótico e a vontade de crescer por esforço próprio deram lugar à cobiça, à inveja, à ambição doentia de realização material à custa de qualquer sofrimento, onde os fins sempre justificam os meios, numa sociedade capitalista e essencialmente consumista, quem tem tempo para pensar em ética e moral, quando estão em jogo milhões de reais? Quem tem tempo para pensar em respeitar o próximo, quando está em jogo galgar um cargo de chefia ou um cargo público?
Os pais jamais vão conseguir incutir conceitos de ética e cidadania nas cabecinhas de seus filhos, se não derem eles mesmos o exemplo. Não adianta ensinar conceitos de trânsito, se, ao levar os mesmos à escola, a mãe vai sem o cinto, em direção perigosa, encostando em fila dupla, etc. Não adianta ensinar os filhos a não mentir, se diante de um amigo, na presença do filho, o pai inventa uma mentira descabida.
Mudar a sensação de corrupção que as pessoas têm talvez seja tão complicado quanto combater a própria. Isso porque no caso de grandes escândalos, é possível mensurar o prejuízo causado. Mas, como medir, por exemplo, o suborno para o fiscal te aprovar no dia do exame da carteira de motorista? Como medir a cola que você usou no dia daquela importante prova, sem a qual você jamais teria sido aprovado naquele concurso? É difícil, é extremamente difícil, sobretudo porque temos que começar olhando para dentro de nós mesmos, vigiarmos nossos gestos e nos avaliarmos o quanto “corruptos” nós somos.
A grande corrupção existe tanto em países ricos como em pobres. Já a pequena corrupção é mais freqüente em países pobres. Nesse caso é preciso promover uma verdadeira mudança cultural para combater a pequena corrupção. Uma mudança cultural não é algo fácil de se implantar, naturalmente. Mas também precisa fazer parte de um combate estruturado à corrupção. Dificilmente o país conseguiria se organizar para evitar grandes escândalos se as pessoas continuarem a acreditar que dando um presentinho para o filho do professor, viabilizará passarmos naquela prova no final do ano.
Se a população vende seu voto ou vota em político que está ligado a atos de corrupção, ela acaba por perpetuar esse tipo de sistema, criando verdadeiras ratazanas difíceis de serem removidas e com procriação e ramificação ultra-veloz.
É fundamental, mais uma vez, usarmos o senso crítico e avaliarmos a coisa desapaixonadamente.
Mas tem mais... Bons salários e valorização profissional e social são requisitos básicos para todo sistema funcionar, precisamos, evidentemente, remunerar melhor diversos setores, começando pela classe docente, afinal bons e dedicados professores haverão de contribuir par o despertar do senso crítico e para a solidificação de nossa maturidade política e social. Possivelmente conceitos de ética e cidadania serão assimilados e postos em prática por nossas crianças a partir de famílias estruturadas; mas a contribuição que as salas de aula podem dar é fundamental.
Não serão intervenções cirúrgicas (leia-se CPIs), nem remédios potentes (leia-se códigos de ética), que irão resolver o problema da corrupção no Brasil. Precisamos da vigilância de um poderoso sistema imunológico que combata a infecção no nascedouro, como acontece nos países considerados honestos e auditados. Portanto, o Brasil não é um país corrupto. É apenas um país que necessita de duas coisas: a curto prazo, de uma fiscalização mais eficiente na raiz do problema, é preciso valorizar mais os Tribunais de Contas. A médio e longo prazo, é preciso uma reeducação para o despertar de uma consciência cidadã.
Cícero Henrique da Silva
Bacharel em Direito pela FADICA
Advogado inscrito na OAB/PE
Assessor Jurídico da Prefeitura de Lajedo
Professor contratado da Rede Estadual de Ensino
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